quarta-feira, 1 de julho de 2015

DUAS VERSÕES PARA A MESMA HISTÓRIA

                
            MATA-SETE OU DOM CAIO

     Queridas e queridas muitas vezes não precisamos escrever uma coisa totalmente nova não, basta mudar alguns elementos na história e temos uma história totalmente nova. Veja os exemplos abaixo:

     Audio da leitura tradicional deste conto


     Audio da leitura lúdica desse conto sem edição. Muito show


               MATA-SETE

     Era uma vez, um alfaiate muito pobre e muito medroso. Um dia estava ele costurando e sendo importunado pelas moscas. Deu uma pancada com a mão em cima da mesa e reparou que havia matado sete moscas de uma vez. Ficou radiante e escreveu numa tábua:
- "Mata sete de uma vez - e pregou o letreiro na porta.
     Sucedeu que o rei soube dessa fama e mandou chamar o alfaiate, que foi tremendo de medo. Lá chegando, o rei perguntou se era verdade que ele matava sete num golpe e, ouvindo a resposta do rapaz, disse que queria que provasse sua valentia.
     Na floresta, moravam dois gigantes que viviam matando quem passava por perto. O rei mandou que Mata-sete fosse prender os dois gigantes. Mata-sete foi em procura dos gigantes, mais morto do que vivo, e assim que ouviu as pisadas dos dois, escondeu-se bem escondido. Os dois gigantes chegaram muito cansados e estiraram-se na sombra de umas árvores para dormir. O Mata-sete assim que viu os dois agarrados no sono, apanhou uma pedra e atirou com bem força na cabeça de um deles. O gigante acordou, passou a mão na cabeça, olhou para todos os lados e continuou no sono. Vai o Mata-sete e joga outra pedra no segundo gigante. Este fez o mesmo, mas não vendo vivalma dormiu de novo. Mata-sete repetia a pedrada. O gigante acordou e balançou o companheiro com toda vontade, protestando contra aquela brincadeira bruta de bater com uma pedra na cabeça dele. O outro defendeu-se acusando o amigo. Aquietaram-se, mas o Mata-sete seguiu atirando pedras ora num e ora noutro e os dois gigantes terminaram zangados, discutindo, e agarram-se numa luta de morte, caindo pelos barrancos, derrubando árvores, até que ficaram cobertos de sangue e quase mortos. Mata-sete tirou a espada de um gigante e acabou de matar os dois grandões, levando as orelhas para mostrar ao rei, que o festejou muito.
     Não satisfeito, o rei mandou que Mata-sete trouxesse o touro bravio que não deixava pessoas alguma passar por perto da cidade. Mata-sete foi morrendo de medo, mas não tinha outro jeito. Chegou numa campina e avistou o touro, um bicho enorme e feroz que correu imediatamente para cima do rapaz. Mais que depressa, o Mata-sete se colocou diante de uma árvore e esperou o touro fazendo toda sorte de gestos. Quando o touro estava pega não pega, Mata-sete rodou para trás da árvore e o touro deu tamanha cabeçada que ficou desacordado no chão. Mata-sete amarrou-o bem amarrado e correu para avisar o rei do que tinha feito.
     Havia uma onça que devorava quase todo o gado. O rei mandou o Mata-sete prender a onça. Mata-sete ficou certo que desta vez morria no dente da onça. Escolheu um canto no mato e fez uma casinha de troncos de paus, amarrados com cipós. Abriu uma porta na frente e outra estreitinha, atrás, com uma tranca por fora. Pegou uma ovelha e deixou na frente da casinha, escondendo-se dentro da sala. Lá para as tantas a onça apareceu farejando a ovelha. Mata-sete puxou o bicho para dentro e a onça, para não perder a caça, foi entrando devagar. Assim que ela entrou, o rapaz correu e saiu pela porta de trás e fazendo a volta fechou a da frente, deixando a onça presa, urrando de raiva.
     O rei ficou certo da coragem de Mata-sete, mas querendo dar-lhe a mão da princesa achou de bem que ele fosse comandar nas guerras com outro rei. Mata-sete montou o cavalo e, como se este fosse árdego, arrancou numa carreira doida, levando o rapaz agarrado nas crinas. Na carreira em que ia, o cavalo pulou o muro do cemitério e o Mata-sete caiu como uma trouxa lá dentro. A briga era do lado de fora e quando o Mata-sete saiu do cemitério correndo, assombrado, os soldados inimigos tomaram-no por um fantasma e debandaram como coelhos, dando a vitória aos outros, que trouxeram Mata-sete de charola até o palácio do rei.
     A princesa já queria mesmo casar com o rapaz, mas o rei não se resolvia e mandou dez soldados prenderem Mata-sete e sacudirem ele fora do reino. Mata-sete vivia esperando uma maldade, por isso viu os dez soldados subindo a escada para o quarto onde ele estava. Fez que estava dormindo e falando alto.
     Vida triste! Inferno! Acabo aleijado por não brigar! Não aparece quem queira lutar comigo! Diabo! Se aparecesse agora um grupo de soldados era uma beleza! Uns dez soldados que eu matasse de um golpe acalmavam meu gênio!
     Os soldados que ouviram essas palavras voaram escada abaixo e foram contar tudo ao rei. Este, vendo que Mata-sete era mesmo valente, deu a filha a casamento e foram os dois muito felizes, vivendo no meio de festas.

                    História contada por Benvenuta de Araújo, de Natal, Rio Grande do Norte. (CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 17. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. P. 173-175.
                              Retirada da Fonte: HORTA, Maria Regina Figueiredo. Português: uma língua brasileira, 6º ano / Maria Regina Figueiredo Horta, Ligia Regina Máximo Cavalari Menna, Maria das Graças Vieira. - 1 ed. - São Paulo: Leya, 2012. - (Coleção português: uma língua brasileira) 
         

            DOM CAIO

     Era um alfaiate muito poltrão, que estava trabalhando à porta da rua: como ele tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir de valente. Vai de uma vez viu muitas moscas juntas e de uma pancada matou sete. Daqui em diante não fazia senão gabar-se.
   - Eu cá mato sete de uma vez!
     Ora o rei andava muito aparvalhado, porque lhe tinha morrido na guerra o seu general Dom Caio, que era o maior valente que havia, e as tropas do inimigo já vinham contra ele, porque sabiam que não tinha quem mandasse a combatê-las. Os que ouviram o alfaiate andar a dizer por toda parte: "Eu cá mato sete de uma vez!" foram logo metê-lo no bico ao rei, que se lembrou de quem era assim tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio. Veio o alfaiate à presença do rei, que lhe perguntou:
  - É verdade que matas sete de uma vez?
  - Saberá Vossa Majestade que sim.
  - Então nesse caso vais comandar as minhas tropas, e atacar os inimigos que já me estão cercando.
     Mandou vir o fardamento de Dom Caio e fê-lo vestir ao alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bico enterrado até as orelhas; depois disse que trouxessem o cavalo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavalo, e ele já estava a tremer como varas verdes; assim que o cavalo sentiu as esporas botou à desfilada, e o alfaiate a gritar:
  - Eu caio, eu caio!
    Todos os que o ouviam por onde ele passava, diziam:
  - Ele agora diz que é Dom Caio; já temos homem.
     O cavalo, que andava costumado às escaramuças, correu para o sítio em que andava a guerreia, e o alfaiate com medo de cair ia agarrado às clinas, a gritar como desesperado:
  - Eu caio, eu caio!
     O inimigo assim que viu vir o cavalo branco do general valente, e ouviu o grito: "Eu caio, eu caio!" conheceu o perigo em que estava, e disseram os soldados uns para os outros:
  - Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio.
     E botaram a fugir em debandada: os soldados do rei foram-lhe no encalço e mataram eles, e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavalo e em gritar: "Eu caio". O rei ficou muito contente com ele, e em paga da vitória deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucesso de Dom Caio pela sua coragem.

                     (BRAGA, Teófilo (org.). Contos tradicionais do povo português. Lisboa: Dom Quixote, 1994.)

                                Retirada, também, da Fonte: HORTA, Maria Regina Figueiredo. Português: uma língua brasileira, 6º ano / Maria Regina Figueiredo Horta, Ligia Regina Máximo Cavalari Menna, Maria das Graças Vieira. - 1 ed. - São Paulo: Leya, 2012. - (Coleção português: uma língua brasileira) 

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